02/03/2015

AGROVIA Sociedade Argo-Pecuaria, S.A.

Uma tranquila viagem no tempo, by "Revista de Vinhos"

Uma tranquila viagem no tempo, by "Revista de Vinhos"

Quinta da Lapa


Uma recuperação feita com paixão e bom gosto transformou a Quinta da Lapa num destino turístico muito interessante. Tal como no vinho, também no enoturismo os pormenores podem ser decisivos. E aqui há pormenores deliciosos. E bom vinho.


Este ar não engana. O céu até pode ainda segurar as nuvens que restam do Inverno, a brisa de Norte continua arisca, mas é impossível não notarmos que a Primavera está no ar. Há um aroma doce e morno que nos rodeia, um caleidoscópio de cheiros e sons que desliza suavemente embalado pelo rogaçar das folhas da grande árvore no centro do pátio. Ouve-se, ao longe, o esforçado ronronar de um tractor, ecos de sinos ecoam de vez em quando sobre a paisagem ondulada. Estamos na Quinta da Lapa. Que esta atmosfera de puro campo se possa encontrar a menos de uma hora de caminho (70km) do centro de Lisboa é apenas mais uma achega ao carácter único de um país pequeno em dimensão, mas enorme em diversidade. Manique do Intendente é a terra mais próxima e falar dela é também perceber como é que se encontra aqui uma quinta com 300 anos de história. É uma pequena vila, onde em tempos fervilharam sonhos de grandeza. Foi outorgada, em 1791, pela rainha D. Maria I ao seu intendente geral da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, e dele herdou o seu novo nome (antes chamava-se Alcoentrinho), tornando-se sede de concelho. Pina Manique tinha grandes planos para a “sua” vila, em breve cidade. O majestoso plano urbanístico da que um dia poderia vir a ser a capital do país e do império incluía uma imponente praça central de formato hexagonal, servida por seis vias. O que temos hoje é uma pálida imagem do sonho de Pina Manique, cuja morte interrompeu os trabalhos de forma defi nitiva. Ficaram a Praça dos Imperadores, a Casa da Câmara e a capela do palácio, agora igreja matriz. Mas nenhum destes edifícios é tão impressionante como a incompleta fachada do palácio, um fóssil colossal que surpreende e esmaga quem visita a terra. Já agora, convém acrescentar que as gloriosas vias de acesso à praça central (as ruas de César, Augusto, Trajano, Sertório e Justiniano, bem como uma sexta cujo nome se perdeu) existem, mas sob a forma de pequenas ruelas… Ali ao lado, a história da Quinta da Lapa é bem diferente. Anterior ao consulado de Pina Manique, para começar, como fi ca bem expresso no painel de azulejos logo à entrada: “Quinta da Conceição da Lapa de Dom Lourenço de Almeida, Anno de 1733.” A casa principal, essa é de 1756 e essa data – apenas um ano depois do brutal terramoto de Lisboa – levanta, ainda hoje, duas hipóteses: ou a casa original fi cou danifi cada e foi reconstruída; ou a família (como aconteceu com tantas outras nessa época) decidiu abandonar a Capital após o sismo para se fi xar na província, melhorando a habitação de acordo com as novas funções.


HORIZONTE DE VINHAS Seja como for – e ao contrário do que aconteceu com Manique do Intendente –, a morte do patriarca, em 1750, não signifi cou o fi m do seu sonho. A quinta continuou a crescer e a prosperar. Até que, já em pleno século XXI, foi modernizada e transformada numa verdadeira sala de visitas para quem goste de viajar no tempo. Com a silhueta maciça da serra de Montejunto a delimitar o horizonte para Oeste e suaves ondulações de terreno, intercaladas com declives mais abruptos, desenhando a paisagem próxima, a quinta ergue-se no topo de uma colina, dominando uma paisagem de vinhas e prados. Cada vez mais vinhas do que prados, acrescente-se. Porque, se por enquanto ainda é possível contemplar campo aberto das janelas dos quartos entretanto instalados, em breve a vinha será dominante. Na Quinta da Lapa há 30 hectares de vinhedos, mas outros 18 estão a ser plantados. A vertente enoturística da propriedade ganhou corpo em 2011 e reforçou-se já este ano, com a inauguração de 11 suítes. Antes já era possível marcar almoços ou festas, visitar a adega, fazer provas de vinhos (com queijos e enchidos), fazer compras na loja. Agora, tudo isso se mantém (as obras nestes espaços ainda decorriam na altura da visita da Revista de Vinhos), com condições ainda melhores. Mas o grande salto é mesmo a oferta de dormidas. Sílvia Canas da Costa, fi lha do proprietário e que gere o espaço, é arquitecta. Aplicou aqui a sua inspiração, adaptando as edifi cações rústicas, unindo-os à casa principal e criando uma atmosfera que é simultaneamente despojada e elegante. No centro deste rectângulo formado pela casa e pelo grande salão de festas está um pátio ao qual se acede através de um portão de madeira que faz lembrar o cenário das missões mexicanas que vemos em muitos westerns. Há um sino, paredes brancas, janelas emolduradas a pedra e com caixilhos vermelhos, uma bica com carranca, grandes talhas de barro nos cantos, uma árvore enorme e outras mais pequenas. É aqui, num banco de pedra, que nos sentamos a sentir a Primavera. Pena o céu carregado de nuvens, que o contraste do azul há-de ser mágico.


PASSEAR A PÉ, DE BICICLETA, A CAVALO Junto ao portão uma cozinha/copa com janelas rasgadas mas baixinhas, deixando a luz exterior incidir apenas nas bancadas. Daí para a sala de jantar, uma porta lateral dá acesso à capela, por agora sem fi gura no altar, mas uma atmosfera diferente, paredes em pedra banhadas pela luz difusa que entra pelas pequenas janelinhas redondas. Uns passos para trás, e da sala de refeições subimos umas escadas para a zona comum, onde peças de Rafael Bordalo Pinheiro espreitam de uma vitrina. Aqui encontramos a pequena sala da televisão (não existem nos quartos, uma opção que Sílvia assume em nome de uma vivência diferente para quem fi ca na quinta), outra de estar, um escritório, uma sala de leitura. Em suma, vários ambientes diferentes, susceptíveis de proporcionar alguma privacidade, mas também de alimentar a formação de grupos, conforme a vontade de cada um. Encontramos móveis antigos, candelabros de vidro de Murano (montados à mão, como um puzzle, recorda a nossa anfi triã), uma atmosfera luminosa proporcionada pelas grandes janelas ao jeito pombalino. E daí seguimos para o longo corredor em ângulo recto que nos distribui pelos quartos. Cada um tem o seu nome. “Periquita”, “Tamarez”, “Syrah”, “Trincadeira Preta”, Alicante Bouschet”, “Arinto”, “Aragonez”… Castas, claro. Os quartos são verdadeiras suítes, algumas com a zona de dormir em mezzanine, todos com decoração minimal e mobiliário muito funcional. Uns com janelas para o exterior, outros com vista para o pátio interior. Mas, por mais que tentemos registar tudo o que já foi feito na Quinta da Lapa, há sempre mais qualquer coisa a caminho de se concretizar. Caminhando meia centena de metros pelo meio das vinhas, à beira de uma encosta mais pronunciada, encontramos uma pequena casa aos pés da qual se estende um antigo tanque de rega que está a ser reconvertido em piscina. Aqui, passear a pé é, não apenas possível, mas recomendável. Também se pode pedalar pelos caminhos que bordejam as vinhas a perder vista e a parceria entretanto estabelecida com uma empresa que organiza passeios a cavalo abre novos horizontes. Com marcação prévia, podemos também defi nir percursos turísticos pela região. E é possível agendar cursos de cozinha. Mas o que mais apetece é fi car por aqui, sentado neste banco de pedra ou noutro lá fora, um copo de vinho na mão, o silêncio e o calor adocicado do ar de Primavera por companhia. Apreciando as brisas e pisando o solo (argilo-calcários formados pelos depósitos milenares do rio Tejo) que garantem aos vinhos da casa uma frescura muito peculiar. Saboreando o sossego. Quase às portas de Lisboa e a todo um mundo de distância.


 


Exhibitor Data Sheet